Entrevista sobre suicídio - Jornal Campus UnB

 

 

Campus | Brasília, 21 a 27 de fevereiro de 2013

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Saúde

A pessoa que tenta suicídio está em um sofrimento psíquico grande.

Em vez de julgar, o que deve ser feito é acolher”

 

Stéphanie Sabarense,

psicóloga especialista em suicídio

Duas tentativas por dia

Sem atuação efetiva do poder público, Distrito Federal apresenta alto índice de suicídios.

Trabalho do CVV se mantém como referência em prevenção

Vanessa Arcoverde

Dados da Secretaria de Saúde do Distrito Federal referentes a 2012 mostram que pelo menos duas pessoas tentam se suicidar por dia no DF. O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) atende 69 chamadas mensais que resultam em uma média de sete suicídios consumados. O DF, com uma taxa de 5,3 suicídios por 100 mil habitantes, aproxima-se da média nacional, que é de 5,7 mortes, segundo dados do Ministério da Saúde.

A coordenadora de Prevenção do Suicídio da Diretoria de Saúde Mental da Secretaria de Saúde do DF (Disam), Beatriz Montenegro, afirma que esse número, no entanto, não reflete com precisão a rea­lidade. “Em Brasília temos vários exemplos de subnotificação de ten­tativas e também de suicídios consumados que, em função de precon­ceito, são computados como outro tipo de morte”, afirma.

A psicóloga especialista em suicídio Stéphanie Sabarense con­corda com Beatriz: “Não é possível ter certeza sobre as taxas de suicídio porque muitos profissionais não sabem identificar a causa da morte, fora as pessoas que negam quando há tentativa”. E acrescenta: “Além dos casos explícitos, é preciso também investigar acidentes suspeitos”.

 

Ramilla Rodrigues

       

 

Causas

A presença de transtorno mental é um dos fatores de risco mais importantes para o suicídio (presente em 90% a 100% dos casos). Os quadros mais comuns são depressão, alcoolismo e esquizofrenia, sendo frequente a associação de mais de um deles.

Algumas características sociodemográficas também identificam os grupos de maior risco. Os homens morrem três vezes mais por essa causa, enquanto as mulheres tendem a fazer três vezes mais tentativas de suicídio. “As taxas parecem aumentar para os dois sexos, mas a proporção de três para um se mantém”, afirma Beatriz Montenegro. Os homens se suicidam mais por conta do método utilizado por eles que é, em geral, mais letal que o das mulheres.

“O que mais eleva a taxa de suicídio é o índice de deses­perança, que é a percepção de que as coisas não vão melhorar.

Existem escalas de suicídio e estresse, que medem, dentre outros fatores, depressão e ansiedade. Se a pessoa tem um grande nível de desesperança, consideramos que o potencial suicida dela é alto”, explica a psicóloga Stéphanie Sabarense.

Apoio

Em setembro de 2011, o Governo do Distrito Federal (GDF) lançou a Política Distrital de Prevenção ao Suicídio (PDPS), com o objetivo de capacitar profissionais do Corpo de Bombeiros e psicólogos, além de campanhas de conscientização. No entanto, o projeto ainda precisa sair do papel.

A portaria nº 184, publicada em setembro de 2012 no Diário Oficial do Distrito Federal, instituiu a Política Distrital de Prevenção do Suicídio, primeira do tipo no Brasil, que tem como finalidade promover a preven­ção de tentativas e suicídios consumados, a realização de campanhas socioeducativas de conscientização da sociedade e a educação permanente dos profissionais de saúde das uni­dades de atenção básica.

Criado há 50 anos, o Centro de Valorização da Vida (CVV) é referência no trabalho de prevenção aos suicídios. Presente no DF há 33 anos, o CVV funciona em um pequeno escritório no Setor Comercial Sul. A voluntária Mazé pede para ser identificada pelo nome como é conhecida dentro da instituição. De acordo com ela, o posto de atendimento está com pouca gente. Há apenas 48 pessoas que se revezam em plantões de quatro horas para atender quem liga em busca de apoio.

Em 2012 o Centro fez quase 8 mil atendimentos. Em 15 anos como voluntária, Mazé diz que ninguém nunca tirou a vida quando foi atendida por ela, algo raro entre os atendentes: “Já teve voluntário que chamou o Corpo de Bombeiros”, lamenta.

Relatório da OMS publicado no ano passado mostra que entre 30 e 40% das pessoas que recorrem ao suicídio tentam uma segunda vez. Mazé afirma, porém, que não é função do voluntário do CVV encaminhar o paciente para terapia: “A gente não julga, só acolhe. O que fazemos é apenas uma escuta qualificada”. Diferentemente do CVV, a abordagem psicoterapêutica visa o tratamento e, por vezes, a intervenção. “Caso a pessoa esteja em risco sério de cometer suicídio, ela será internada e a família avisada”, explica a psicóloga Stéphanie.

Para ela, o preparo de profissionais de saúde é vital para que haja diminuição no índice de suicídios na cidade. “É veiculado que a medida a ser tomada é chamar o Corpo de Bombeiros. No entanto, muitas vezes eles estão desprepara­dos psicologicamente para a tarefa. Estão prontos para medicar e conter a vítima, mas nem sempre isso é o mais indicado.”

A coordenadora de Prevenção do Suicídio da Disam, Beatriz Montenegro, explica que existem diferentes tipos de medidas a serem tomadas de acordo com o grau de angústia psíquica da vítima. “Se a pessoa está em uma situação de risco iminente, com acesso aos meios que pretende usar para realizar uma tentativa de suicídio, os serviços de urgência devem ser acionados: Samu, Corpo de Bombeiros ou a própria polícia quando envolver arma de fogo. Se houver indício de sofrimento psíquico, deve-se procurar o Centro de Atenção Psicossocial (Caps) mais próximo de casa para ser acolhida e inserida no tratamento mais adequado.”

Serviço

 

CVV Brasília

141 ou (61) 3326-4111

Centro de Atenção Psicossocial – Caps

(61) 3381-6957

(61) 3567-1967

 Edição: Jorge Macedo    Diagramação: Guilherme Alves